Que noite meu amigo espelho.
E lá estava ele ao lado de um corpo inerte, gelado e quase transparente de tão branco. O Professor Sucupira me tornou um amante da leitura e principalmente da história do mundo. Mesmo depois de formado mantivemos uma amizade que durou até ontem.
Que pena Professor, nossas trocas de opiniões acabaram.
Fazer o que meu filho, tudo têm sua hora e a minha chegou. Mas, cadê a Morte? Cadê a caveira de túnica preta e foice na mão?
Ontem no leito do hospital, só ouvi os médicos falarem: não tem mais o que se fazer, agora é só esperar a morte. Pensei comigo (pois falar não dava, o AVC foi terrível), vou esperá-la acordado, quero ver sua fuça. E disser-lhe do meu orgulho em olhar na sua cara. Ela que leva sem dó e nem pena, heróis e covardes, ricos e pobres, fortes e doentes, crianças, jovens e adultos, homens, mulheres, pretos, brancos, pardos, amarelos, vermelhos e até ET's (rimos nesta hora). Dei uma cochilada rápida e acordei com dois enfermeiros me tirando da cama e colocando-me numa maca. Ai veio o engraçado, ou melhor, o terrível, eu estava em pé ao lado deles e deste meu cadavérico corpo.
E o tal túnel branco Professor?
Tal como a Dona Morte, até agora nada (rimos novamente). Mas o chato mesmo foi quando a maca saiu do quarto, eu fui puxado, jogado, sei lá o que, mas fui forçado a acompanhar o cortejo. Até esbravejei. Que besteira a minha, estou morto quem vai me ouvir, pensei comigo mesmo.
E até chegar aqui o Senhor ficou só ao lado do corpo?
Fazer o que? Hora ou outra aparecia um outro corpo e seu fantasma, se é que posso chamar assim. Gritando, chorando, xingando, putos da vida, ou melhor, da morte (e rimos novamente). Noventa por cento não se conformam. Chega a ser hilário, sendo que esta é a única certeza que temos desde que nascemos. Olha, até tentei acalmá-los mas, qual o que, minha santa mãezinha fui duramente lembrada.
Devem ter sido horas terríveis, Professor.
Terrível? Terrível mesmo foi quando me deu vontade de urinar. Você acredita que continuo tendo as mesmas vontades de quando atuava neste corpo? Que merda.
E, ai Professor?
Bem, a princípio fiquei preocupado e até gritei se alguém sabia onde era o banheiro dos fantasmas? Mas aqueles desgraçados nem ouviram, continuavam nas suas reclamações e blasfêmias. Achei melhor procurar um cantinho na sala e regar a parede. Que nada, parece que um imã atuava entre eu aqui e eu lá. A bexiga estava quase estourando, não tive duvidas, fiz ali mesmo. Que alívio.
E era urina mesmo, Professor? Normal como a dos vivos? Ou foi algo, tipo, fumacinha?
Fumacinha o cacete, é molhada e fedida como qualquer outra. A sorte é que em questão de minutos, sumiu tudo.
Ufa, já fico mais tranquilo em saber que é assim (rimos a contra gosto).
Olha, a bem da verdade, isto não aconteceu com os outros fantasmas. As urinas, merdas e até vômitos, não desapareceram como aconteceu comigo.
Pronto, já fiquei preocupado de novo. Falei.
Então meu corpo soltou um puta peido e espalhou merda por toda a maca. Que coisa mais nojenta. Mas rapidinho veio um casal de enfermeiros para me limparem e me trocarem. Alguém da minha parca família trouxe minhas roupas eternas. Então pintou uma duvida, e agora para onde eu vou? Cade o tal túnel branco e a Senhora Morte?
Interessante.
ResponderExcluirPara refletir.História ou estória?